Capítulo 2: O Mundo em Pausa
Léo desceu as escadas correndo, com a mão apertando o fundo do bolso do moletom para garantir que o estranho relógio de cristal não caísse. A casa estava cheia de sons e movimento.
Na cozinha, sua mãe estava despejando suco de laranja de uma jarra para um copo de vidro: Glub… glub… glub. A televisão da sala tagarelava as notícias do dia e Pipoca, o cachorro vira-lata da família, dava pulos frenéticos tentando alcançar um pedaço de pão na beirada da mesa: Au! Au! Lá fora, a chuva de sexta-feira batia forte contra o vidro da janela: Pitter-patter… pitter…
Léo sentou-se na cadeira e puxou o Relógio de Areia Negra do bolso com muito cuidado, escondendo-o debaixo da mesa. Ele observou a areia flutuante no meio do vidro. Era fascinante. Como um pequeno cosmos preso ali dentro.
O que aconteceria se ele o virasse de cabeça para baixo? A areia negra finalmente cairia?
A curiosidade falou mais alto. Léo segurou as pontas de ouro envelhecido e, num movimento rápido, virou o relógio. No mesmo instante, um som estranho ecoou pela cozinha. Não foi um barulho alto, mas sim como se todo o ar da sala tivesse sido sugado de uma vez só: VUUUUUSH!
E então… o silêncio absoluto.
Léo piscou. A televisão havia parado de falar. O som da chuva desapareceu. Ele olhou para cima e arregalou os olhos. Pipoca, o cachorro, estava no ar, com as quatro patas fora do chão, congelado no meio de um pulo. Suas orelhas grandes estavam espetadas para cima, totalmente imóveis.
O menino levantou devagar e foi até a sua mãe. Ela estava com um sorriso congelado no rosto, sem piscar. O suco de laranja que ela despejava formava uma corda perfeita e sólida de líquido laranja no ar, ligando a jarra ao copo. Léo tocou no suco. Estava gelado e molhado, mas não se moveu um milímetro. Parecia feito de gelatina muito dura!
Ele olhou para a janela. As gotas de chuva não estavam caindo; elas flutuavam no ar do quintal como milhares de pequenas bolinhas de cristal brilhante.
— Uau… — sussurrou Léo. A voz dele soou alta demais naquele silêncio gigantesco. Ele olhou para o relógio em sua mão. A areia negra havia finalmente começado a cair, muito lentamente, grão por grão. — Eu parei o tempo. O mundo inteiro está pausado!
Um sorriso enorme se abriu no rosto de Léo. Aquilo era melhor do que qualquer videogame. Ele podia comer a sobremesa antes do jantar! Podia arrumar o quarto em um segundo! O mundo era o seu parque de diversões congelado.
Mas enquanto Léo comemorava em silêncio, ele não percebeu que o ambiente ao seu redor começou a ficar um pouquinho mais frio. E muito menos percebeu que, no canto escuro da cozinha, algo estava se mexendo.
Léo acha que tirou a sorte grande, mas o tempo parado esconde segredos arrepiantes. Quem ou o que também consegue se mover quando o relógio para? O suspense começa no Capítulo 3!

