Nina, a Preguiça, e o Mico que Não Conseguia Dormir

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No alto de uma embaúba, no meio da Mata Atlântica, morava uma bicho-preguiça chamada Nina.

Nina fazia tudo devagar. Devagar mesmo.

Para pegar uma folha, ela esticava o braço assim… bem… devagarinho. Para virar a cabeça, levava um tempão. E, quando a chuva caía, plic, ploc, plic, ela nem corria: ficava ali, pendurada, sentindo as gotas escorrerem pelo pelo.

O pelo da Nina era marrom, com umas manchinhas verdes. Ela achava lindo. Parecia que a própria floresta tinha resolvido morar nela.

O mico apressado

Na árvore do lado morava o Tito, um mico-leão-dourado de juba cor de laranja e uma pressa que não acabava nunca.

Zum! Ele passava pulando de galho em galho.

Zum! Voltava com uma fruta na mão.

Nhac, nhac, nhac! Comia tudo em três mordidas e já saía correndo de novo.

— Bom dia, Nina! — gritava, sem nem parar. — Aposto corrida até o rio!

— Booom… diiia… Tiii…to… — respondia Nina.

Mas, quando ela terminava de falar, o Tito já estava lá do outro lado da mata.

O que a Nina via

Tito achava a Nina meio sem graça.

— Você não faz nada o dia inteiro! — disse ele uma tarde, balançando no galho. — Fica aí paradona.

Nina sorriu do jeito dela, devagar.

— Eu faço, sim. Eu olho.

E era verdade. Como andava devagarinho, Nina via coisas que ninguém via. A orquídea roxa que abria uma pétala por dia. A fila de formiguinhas carregando pedacinhos de folha, uma atrás da outra. O ninho do beija-flor, pequenininho, do tamanho de uma xícara, escondido entre duas folhas.

Tito tinha passado do lado daquele ninho umas cem vezes. Nunca tinha reparado.

A noite que não acabava

Naquela noite, a mata ficou escura e fresquinha. Todos os bichos foram dormir.

Quer dizer… quase todos.

Tito virava para um lado. Virava para o outro. Fechava os olhos com força. Abria de novo.

— Ai, minha cabeça não para! — resmungou. — Parece que tem um macaco pulando aqui dentro!

Tentou contar estrelas: uma, duas, três, quarenta… e se perdeu. Tentou pular de galho em galho até cansar, zum, zum, zum, mas só ficou mais acordado ainda.

Até que, lá na embaúba, viu dois olhinhos brilhando no escuro.

— Nina? Você também não consegue dormir?

— Eu… estou… só… descansando… — disse ela. — Vem… cá.

O segredo do devagarinho

Tito sentou no galho, do lado da Nina. O pé ainda balançava, tec-tec-tec, sem conseguir parar.

— Primeiro — disse Nina —, a gente enche a barriga de ar. Bem devagar.

Tito encheu. A barriga ficou redondinha.

— Agora… solta… assim: fuuuuu.

Fuuuuu, fez o Tito.

Quer tentar junto com ele? Enche a barriga de ar… e solta bem devagarinho… fuuuuu.

— Agora escuta — sussurrou Nina. — Um barulho de cada vez.

Tito escutou. Lá embaixo, perto do riacho, um sapo fazia cróc… cróc… Nas folhas, uma chuvinha fina começou a cair, tic, tic, tic. Longe, bem longe, uma coruja chamava: uuu… uuu…

E tinha um cheiro bom no ar: de folha molhada, de terra, de flor que só abre de noite.

— Eu nunca tinha ouvido nada disso — cochichou Tito.

— Estava tudo aí — disse Nina. — Você é que passava correndo.

Dois amigos na embaúba

O pé do Tito parou de balançar. Os ombros ficaram molinhos. Os olhos foram fechando, fechando…

Ele encostou a cabeça no pelo macio e verdinho da Nina e dormiu ali mesmo, roncando baixinho: rrrr… rrrr…

Nina ficou olhando o amigo dormir. Depois olhou para a lua, bem devagar, como fazia tudo.

De manhã, quando o sol entrou pelas folhas, Tito acordou e espreguiçou os braços.

— Nina — disse ele. E, pela primeira vez, falou sem pressa nenhuma. — Hoje você me mostra o ninho do beija-flor?

Nina sorriu.

— Mostro. Devagarinho.


De verdade

O bicho-preguiça vive em florestas como a Mata Atlântica e a Amazônia e passa quase a vida inteira pendurado nas árvores. Ele só desce até o chão mais ou menos uma vez por semana, para fazer cocô, ou quando precisa mudar de árvore. E, apesar de tão lento no galho, é um ótimo nadador.

O pelo esverdeado da Nina também existe: algas crescem no pelo das preguiças e ajudam o bicho a se esconder no meio das folhas. E a embaúba é mesmo uma das árvores de que elas mais gostam de comer as folhas.

Muita gente diz que a preguiça dorme 20 horas por dia, mas essa conta veio de preguiças de zoológico. Quando cientistas mediram o sono de preguiças soltas na floresta, num estudo publicado em 2008, encontraram perto de 10 horas por dia, parecido com o que uma criança dorme à noite.

E o Tito também é bem brasileiro: o mico-leão-dourado só existe na Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro.

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