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Lá no sertão, onde o chão é rachadinho e o sol esquenta as pedras até de tardinha, morava um tatu-bola chamado Bolota.
Ele era pequeno, do tamanho de um melão. Tinha uma casca dura, cheia de quadradinhos, e um focinho comprido que vivia farejando o chão. Fuc, fuc, fuc.
Bolota sabia fazer uma coisa que pouquíssimos bichos sabem: virar bola. Encolhia a cabeça, dobrava o rabinho, juntava as patas e… toc! Pronto. Ficava redondinho e fechado, igualzinho a uma pedra.
O problema é que ele virava bola toda hora.
Um oi na trilha
Numa manhã, o calango Zeca passou correndo pela trilha e parou bem na frente dele.
— Oi! Você é novo por aqui?
Toc!
Bolota virou bola na mesma hora. O coração batia lá dentro, tum-tum-tum, e as bochechas esquentavam embaixo da casca.
Zeca coçou a cabeça.
— Ué. Tinha um bicho aqui agora há pouco… Virou pedra?
E, como estava cansado de tanto correr, o calango sentou em cima dele para descansar.
Bolota ficou quietinho, quietinho, esperando o Zeca ir embora. Demorou um tempão.
A Vó Tatá
Naquela tarde, Bolota voltou para a toca com o focinho baixo. A Vó Tatá estava na entrada, mastigando umas formiguinhas e olhando o céu ficar cor de laranja.
— Por que essa carinha, meu neto?
— Vó, eu queria ter amigos. Mas, quando alguém fala comigo, eu viro bola. Não consigo segurar.
A avó deu uma risadinha baixa, hm-hm-hm, e encostou o focinho no dele.
— Virar bola é um presente, Bolota. Serve para quando o perigo chega. Mas, para amigo… para amigo a gente abre.
— E se eu abrir e ninguém gostar de mim?
— Aí você vai ter tentado. Fechado, ninguém consegue nem te conhecer.
Bolota ficou pensando nisso até pegar no sono.
O cheiro da chuva
Dias depois, o vento mudou. Tinha um cheiro diferente no ar: cheiro de terra molhada, de folha verde que ainda nem tinha nascido.
— Vem chuva! — gritou a asa-branca, lá do alto do mandacaru.
E veio. Primeiro uns pinguinhos, plic, plic. Depois um chuvão, chuááá, daqueles que lavam o sertão inteiro de uma vez.
Os bichos correram para se esconder. Bolota se enfiou debaixo de uma pedra grande e ficou olhando a água descer o morro, fazendo riozinhos de barro.
Foi aí que ele ouviu.
— Socorro! Mãe!
A preazinha no barranco
Lá embaixo, no fundo de um barranco, estava uma preazinha chamada Lili. Tinha escorregado na lama e não conseguia subir. As patinhas deslizavam, plaft, plaft, e ela chorava baixinho, toda molhada.
Os outros bichos olhavam de longe. O barranco estava liso demais.
Bolota olhou para o barranco. Olhou para Lili. Sentiu o coração fazer tum-tum-tum de novo.
E teve uma ideia.
Toc!
Virou bola. Mas, desta vez, não foi para se esconder. Deu um empurrãozinho com o corpo e desceu o barranco rolando, tuc, tuc, tuc, quicando nas pedrinhas, até parar bem do lado da preazinha.
Abrir é mais difícil
Agora vinha a parte difícil.
Lili olhava assustada para aquela bola de casca.
Bolota respirou fundo lá dentro. E abriu devagarinho. Primeiro o focinho. Depois os olhinhos. Depois as orelhas.
— Oi… — disse ele, com a voz bem fininha. — Eu sou o Bolota. Eu também tenho medo. Mas eu conheço um caminho.
Conhecia mesmo. De tanto andar com o focinho no chão, sabia onde estavam as raízes firmes e as pedras que não escorregavam.
— Pisa onde eu pisar.
E os dois subiram, passinho por passinho. Quando chegaram lá em cima, a mãe de Lili correu para abraçar a filha. E o Zeca, o calango, estava logo atrás, de boca aberta.
— Ei! Você é a pedra! A pedra em que eu sentei!
Bolota sentiu as bochechas esquentarem. Mas não virou bola. Riu.
— Sou eu, sim. Desculpa ter ficado tão quietinho.
Uma noite cheia de estrelas
Naquela noite, a chuva foi embora e o céu do sertão ficou cheio de estrelas. Tantas que nem dava para contar.
Bolota estava na entrada da toca, de barriga cheia e casca sequinha. Do lado dele, Lili e Zeca disputavam quem via mais estrela cadente.
A Vó Tatá passou por ali e piscou para o neto.
Bolota piscou de volta. Ele tinha aprendido uma coisa: a bola continuava sendo dele, para quando precisasse. Mas o melhor jeito de ficar era aberto, pertinho dos amigos.
Deu um bocejo bem comprido, aaaahm, e dormiu ali mesmo, embalado pelo canto dos grilos. Cri-cri, cri-cri.
De verdade
O tatu-bola existe e é um bicho bem brasileiro. O tatu-bola-da-caatinga só vive no Brasil, principalmente na Caatinga, o sertão do Nordeste.
O nome vem justamente do que o Bolota faz: quando sente perigo, ele se enrola e fica fechado como uma bola, protegido pela casca dura. Pouquíssimos tatus conseguem fazer isso.
Foi ele que inspirou o mascote da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. E hoje está ameaçado: aparece como vulnerável na lista vermelha da IUCN, por causa da caça e da destruição da Caatinga. Cuidar do sertão é cuidar do tatu-bola também.





