Theo e o Medo do Trovão

Naquela tarde, o céu ficou de um cinza esquisito, quase roxo.

O ar parou. As folhas da mangueira do quintal pararam de mexer. E veio aquele cheiro que chega antes da chuva: cheiro de poeira molhada, de chão quente esperando água.

Theo estava no tapete da sala, montando uma torre de blocos. A Farofa, a cachorrinha caramelo, dormia esticada do lado dele.

Até que, lá longe…

Brrrrum.

A Farofa levantou as orelhas. O Theo também.

A chuva chegou

Primeiro vieram as gotas grossas no telhado: ploc… ploc… ploc-ploc. Depois, todas de uma vez: chuááááá.

A janela piscou, branca, como se alguém tivesse tirado uma foto do céu.

E então:

CABRUUUUM!

A torre de blocos desabou, trec-trec-trec. A Farofa saiu correndo e se enfiou debaixo do sofá. E o Theo, em menos de um segundo, estava agarrado na perna do pai.

— Pai! O céu vai quebrar!

O pai se agachou e deu um abraço apertado nele.

— O céu não quebra, filho. Ele só faz barulho. Muito barulho.

Debaixo da coberta

Naquela noite, a chuva não parava. Theo foi para a cama mais cedo e puxou o cobertor até o nariz. Depois até os olhos. Depois até o topo da cabeça.

Lá dentro era escuro, quentinho e tinha cheiro de sabão de roupa.

Mas o trovão entrava até debaixo da coberta.

BRRRUM!

— Pai! — chamou Theo, com a voz abafada.

O pai apareceu na porta com uma lanterna e uma caneca de leite morno. Sentou na beirada da cama, que fez nhéc.

— Quer saber um segredo sobre o trovão?

Theo tirou só um olho para fora do cobertor.

— Que segredo?

O jogo do elefante

— Toda vez que a janela clarear — disse o pai —, a gente conta elefantes. Um elefante, dois elefantes, três elefantes… até o trovão chegar. Quanto mais elefantes, mais longe a chuva está.

— E se der pouquinho?

— Aí ela está pertinho. Mas a gente está aqui dentro de casa, sequinho, juntinho. E aqui ela não entra.

A janela piscou.

— Um elefante — começou o pai. — Dois elefantes…

— Três elefantes! — continuou Theo, ainda meio escondido.

BRUUUM.

— Três! — disse o pai. — Está longe ainda. Uns mil metros, mais ou menos. Mais longe que a padaria.

Theo arregalou o olho que estava para fora. Mais longe que a padaria era bem longe.

A Farofa também tem medo

Foi aí que uma coisa gelada encostou no pé dele. Theo levou um susto. Era o focinho da Farofa, que tinha subido na cama sem ninguém ver e tremia inteirinha.

— Pai, a Farofa está com medo.

— Está mesmo. Será que você consegue ajudar?

Theo saiu de baixo do cobertor. Fez carinho na orelha mole da cachorrinha, devagar, do jeito que a mãe fazia no cabelo dele quando ele não conseguia dormir.

— Calma, Farofa. É só barulho. Vem, eu te ensino a contar elefante.

A janela clareou.

— Um elefante… dois elefantes… três… quatro… cinco… seis!

Brrrrum. Desta vez o trovão veio mais baixinho, como um gato grande ronronando.

— Seis! — gritou Theo. — Pai, ela está indo embora!

Indo embora

Cada vez que o céu piscava, Theo contava mais.

Oito elefantes. Brum.

Dez elefantes. Brum…

Doze elefantes… e um trovão tão fraquinho que parecia barriga roncando.

A chuva ficou mansinha no telhado: tic, tic, tic. A Farofa parou de tremer e se enrolou feito uma rosquinha bem do lado do travesseiro. O pai apagou a lanterna.

— Pai — cochichou Theo —, amanhã, se trovejar, eu conto sozinho.

— Combinado. E se o medo voltar?

Theo pensou um pouquinho.

— Aí eu conto mais alto.

O pai riu baixinho, deu um beijo na testa dele e saiu na pontinha dos pés.

Lá fora, bem longe, quase não dava para ouvir: brum. Mas o Theo já estava dormindo e não contou esse.


De verdade

O trovão é o barulho do raio. Quando o raio passa, ele esquenta o ar de repente, muito mais do que qualquer forno. O ar se espalha de uma vez só e faz aquele estrondo.

A gente vê o clarão antes de ouvir o trovão porque a luz viaja muito mais rápido que o som. E o jogo do Theo funciona: o som do trovão anda mais ou menos 1 quilômetro a cada 3 segundos. Se você contar seis segundos, a tempestade está a uns 2 quilômetros. É uma conta aproximada, mas ajuda a saber se a chuva está chegando ou indo embora.

O Brasil é o país com mais raios no mundo, segundo o grupo de eletricidade atmosférica do INPE. Por isso vale a regra do pai do Theo: ouviu trovão, fica dentro de casa até a tempestade passar.

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