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Fazia três dias que o dente da Laura estava mole.
Era um dos da frente, lá embaixo. Quando ela empurrava com a língua, ele balançava para a frente e para trás. Tic. Tic. Tic.
Era esquisito. Um pouquinho gostoso. E um pouquinho assustador.
— Mãe, e se ele cair na hora em que eu estiver dormindo? E se eu engolir?
— Acho difícil, filha — riu a mãe. — Quando for a hora, ele vai avisar.
A maçã
Na hora do lanche da escola, Laura abriu a lancheira e encontrou uma maçã vermelha e brilhante, daquelas que fazem crec na primeira mordida.
Ela olhou para a maçã. A maçã olhou para ela.
Laura mordeu devagarinho com o canto da boca, bem longe do dente mole. Crec. E mastigou de um lado só, feito um coelho desconfiado.
— Por que você está comendo torto? — perguntou o Davi, da carteira ao lado.
— Dente mole — disse Laura, com a boca meio fechada, como quem conta um segredo importante.
O Davi arregalou os olhos. Ele ainda não tinha perdido nenhum.
Conselho de todo mundo
Em casa, todo mundo tinha uma ideia.
— Amarra uma linha no dente e a outra ponta na maçaneta — disse o pai, piscando. — Aí alguém bate a porta e… pá!
— Nem pensar! — Laura tampou a boca com as duas mãos.
— Vai ficar banguela! Banguela, banguela! — cantou o Caio, o irmão mais velho, que já tinha perdido seis.
— Deixa a menina — disse a mãe. — Dente de leite cai sozinho, na hora dele.
No domingo, foram almoçar na casa da Vó Lúcia. A casa inteira cheirava a café passado e a bolo de fubá saindo do forno.
A vó olhou bem para a neta, segurou o queixo dela com os dedos macios e enrugados e disse:
— Hmm. Esse aí está por um fio.
Plim!
Laura pegou uma fatia de bolo ainda quentinha. Antes da primeira mordida, o Caio fez uma careta de peixe, com a boca toda torta, e ela começou a rir. Riu tanto que chegou a soltar um ronquinho.
E, no meio da risada…
Plim!
Uma coisinha pequena e branca caiu no prato, bem do lado do bolo.
Todo mundo ficou quieto.
Laura passou a língua no lugar. Tinha um buraquinho macio e um gostinho estranho, meio de moeda. Ela pegou o dente com a ponta dos dedos. Era pequenininho, menor que um grão de feijão.
— Caiu! — gritou. — Caiu sozinho e nem doeu!
Telhado ou travesseiro?
— Agora tem que guardar debaixo do travesseiro — disse a mãe. — De noite, a fada do dente vem buscar.
— Que fada, que nada! — disse a Vó Lúcia, já se levantando da cadeira. — No meu tempo, a gente jogava o dente no telhado e falava bem alto: “Mourão, mourão, toma esse dente podre e me dá um são!”
Laura olhou para a mãe. Olhou para a vó. Olhou para o dente na palma da mão.
Era uma decisão muito difícil.
— Vó, quantos dentes de leite a gente tem?
— Vinte, minha filha.
Laura fez a conta nos dedos. Ainda faltavam dezenove.
— Então este vai para o telhado — decidiu. — E o próximo é da fada.
O dente no telhado
Saíram todos para o quintal. O céu estava ficando cor-de-rosa, e os passarinhos faziam festa nas árvores: piu-piu, tri-tri.
Laura fechou os olhos, girou o braço e jogou com força.
— Mourão, mourão, toma esse dente podre e me dá um são!
O dente subiu, subiu, fez tec numa telha e sumiu lá em cima.
A vó bateu palmas. O pai assobiou. Até o Caio, que vivia implicando, deu um abraço apertado na irmã.
Uma janelinha nova
Naquela noite, já em casa, Laura escovou os dentes devagar, com cuidado para não esbarrar no buraquinho.
Depois sorriu para o espelho. Tinha uma janelinha bem no meio do sorriso. Quando ela falava “sapo”, saía um fiu engraçado pelo buraco.
Antes de deitar, desenhou uma fada pequenininha num papel e escreveu embaixo, com letra caprichada: “Fada, este foi para a vó. O próximo é seu.” Dobrou o bilhete e guardou debaixo do travesseiro.
No escuro, passou a língua no lugar do dente mais uma vez. E sentiu, lá no fundo da gengiva, uma pontinha áspera e durinha querendo aparecer.
Era o dente novo, chegando.
Laura sorriu com a janelinha e fechou os olhos.
De verdade
As crianças têm 20 dentes de leite. Eles costumam começar a cair por volta dos 6 anos, e os primeiros a sair, quase sempre, são os da frente. Embaixo de cada um, o dente permanente, aquele que vai durar a vida inteira, cresce escondidinho e vai empurrando o de leite para fora.
Jogar o dente no telhado é uma tradição bem antiga, que também existe em Portugal. Lá, há registro de versinhos como “Telhado, telhado, toma lá o meu dente podre”, e cada família tem a sua versão. Na Espanha, quem vem buscar o dente é o Ratinho Pérez; na França, uma ratinha; e, nos países de língua inglesa, a fada do dente.





