Capítulo 2: O Galpão dos Sonhos
O quintal da casa de Tico era pequeno, mas sob a lona azul desbotada que ele mesmo amarrou entre o muro e o pé de amora, o espaço se transformava. Ali não era apenas um depósito de entulho; era onde a mágica da física acontecia.
Tico organizava seus achados com precisão cirúrgica. Latas de achocolatado guardavam parafusos separados por tamanho. Potes de sorvete escondiam diodos, resistores e fios desencapados. No centro de tudo, uma mesa feita de uma porta velha apoiada em dois cavalinhos de madeira.
— Se a Dona Marta ver esse motor aqui, ela me faz levar de volta pro lixão em dois minutos — Tico murmurou, jogando uma estopa velha sobre o motor industrial que resgatara no dia anterior.
O problema não era apenas o espaço. Era a ferramenta. Para abrir a carcaça blindada daquele motor, ele precisaria de uma chave inglesa de boca larga, algo que ele definitivamente não tinha. Tico olhou para suas mãos sujas de graxa e soltou um suspiro. Ele sabia que, no Bairro do Recomeço, ninguém te dava nada de graça.
De repente, um barulho de passos pesados fez Tico pular. Ele rapidamente se colocou na frente da mesa, tentando esconder o projeto. Era sua mãe, segurando uma conta de luz com as mãos trêmulas.
— Tico, a luz vai cair de novo se não pagarmos até amanhã. E eu não tenho como tirar esse dinheiro do nada — ela disse, sem nem notar as sucatas ao redor. O cansaço em seus olhos doía mais em Tico do que qualquer bullying na escola.
Ele apertou a chave de fenda no bolso. Ele tinha o motor. Tinha os fios. Mas faltava a peça que faria tudo funcionar. Naquele momento, ele tomou uma decisão: sua invenção não seria apenas um hobby. Tinha que ser a solução para aquela conta de luz e para todas as outras que viriam depois.
A situação em casa apertou e Tico precisa de uma ferramenta profissional. O único lugar que tem o que ele precisa é o temido “Ferro-Velho do Zé”. Será que Tico consegue negociar com o homem mais bravo do bairro? A grande aposta começa no Capítulo 3!

